sexta-feira, 14 de maio de 2010

INSTINTO DE ANIMAL

E você olharia mais uma vez
Mas o dia nem tinha começado
E quantas palavras estavam entre o chão e a mesa?
E quantos futuros foram perdidos no passado...?

Eu me lembro quando minhas asas eram exuberantes
Quando meus mergulhos atravessavam os oceanos
Eu me lembro quando as lágrimas eram apenas chuvas distantes
Quando eu apenas era um herói da coleção das revistas em quadrinhos...

Hoje a cidade vive entre o caos e a esperança de ser erguida
Hoje eu leio o jornal acompanhado da preguiça e da vida que tem de ser vivida
As ruas viram um grande mosaico de notórios anônimos
E todos se conhecem em redes interligadas de sonhos e sentimentos...

E eu olharia mais uma vez
Mas à noite nem tinha começado
E quantas palavras estavam entre o sussurro e o desejo?
E quantas estações vão desejar o inverno outra vez...?

Muitos nem percebem as nuvens que brincam de ser objetos
Muitos nem percebem que vivem aglomerados em desertos
Mas nem tudo é loucura e caos entre a terra e o céu
Existe a poesia, o vinho e os tangos de Gardel...

Nós nos olharíamos mais uma vez
Mas a vida nem tinha começado
E quantas palavras são ditas num beijo?
E quantas voltas o mundo dá antes que se deseje...?


MAURO ROCHA 15/04/2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010

SUAVE BRISA

Pobre diabo que não se vê no espelho
Crivado de amor e de desespero
Mas será amor puro de sentimentos e medo?
Ou será a alta temperatura da libido no tesão do desejo?

Pobre diabo de olhos vermelhos
Que anda na cidade nu de segredos
Que anda em sua corda bamba e sem freios

Pobre diabo que não se vê no espelho
Anda sozinho na noite com a lua por testemunha
Anda sozinho no dia com o sol sem sombra

Pobre diabo de olhos vermelhos
Não sabe se é amor ou atração
Não sabe se é desejo ou paixão

Em sua mão direita uma estaca
Em sua mão esquerda seu coração...


...Pobre diabo...

MAURO ROCHA 28/04/2010



quinta-feira, 6 de maio de 2010

ÓPIO

Andando pela tempestade de meus olhos
Cansado, há dias não durmo
Vou mergulhar em tudo...

Vou escrever o livro entre o pão e o vinho
Vou plantar a árvore no quintal vizinho
Vou fazer o filho no meio do caminho...

Andando pelo deserto de meus olhos
Calado, há dias não durmo
Vou jogar tudo...

À noite maquiada muda à face da lua
A rua desordenada continua nua
Os mesmos olhos perdidos a mesma boca muda...

As épocas são cíclicas
Minhas mãos são ríspidas
Minhas lágrimas são limpas...

E tudo faz parte de um jogo
As cinco é servido chá com biscoito
Prefiro suco espesso extraído do fruto imaturo...

Hoje cheguei perto, bem perto de você
Olhei para teus olhos mas não pude ver
Olhei para a cidade e me perdi na tempestade...

Segui o caminho de paralelepípedos
Segui bêbados e mal-trapinhos
Olhei para a cidade e me perdi em seus desertos...

Cheguei no castelo de areia
Abri a porta e não havia anjos nem sereia
Minha mão estava fria...

Minha casa está no escuro
Estou cansado e há noites não durmo
Meus olhos tempestade, meu corpo deserto...

Ando pela cidade
Ando sem identidade
Ando com saudade...

MAURO ROCHA 30/04/2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

ESTAÇÕES I

Primavera
Sei que não sou seu verão
Mas posso ser seu outono
No inverno.

Mauro Rocha

segunda-feira, 12 de abril de 2010

BSB

Cidade avião.
Cidade.
Cidadão.
Nas retas, Eixão.
Nas curvas, tesourinhas.
Que não cortam papelão.

MAURO ROCHA

quarta-feira, 7 de abril de 2010

TERRA

Estou por aqui algum tempo
Não sei dizer o quanto
Já fui menino
Já fui mulher
Já fui o que ninguém quer...

Hoje sou uma pessoa comum
Mas me lembro dos cem soldados de Napoleão
Ou eu era apenas um motorista de caminhão
Indo a lugar algum...

Mas essa é minha terra
Meu lar, meu habitar
E da minha janela
Assisto o balé do mar...

Estou por aqui algum tempo
Na frente da televisão
Ou é do computador?
Ao fundo uma música de Vivaldi
Foi quando meu espírito se assustou...

Já é hora de voltar...

MAURO ROCHA 02/04/2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

VERSOS E RIMAS

Poema
Poesia
O cotidiano é o lema do dia-a-dia...

Porcelana
Polichinelo
Palavra cruzada é um exercício para o cérebro...

Pirueta
Pirulito
O X da questão muitas vezes está no umbigo...

Castelo
Avião
Hoje em dia só saio de caiaque na mão...

Verso
Rima
O poema é o corpo da poesia, menina!

Rima
Verso
E o vento brinca com as palavras soltas na janela...


MAURO ROCHA 31/03/2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

AS TORRES DA CIDADE

Acordo com a insanidade exposta
Ando pela cidade e abro portas
O silêncio me entorpece
Minhas mãos lisérgicas adormecem

Quero pegar um navio e atravessar o deserto...
Vazio...
Quando cheguei na estação o trem já havia partido
Só deu para sentir o suspiro ofegante do inverno...

Você tem seus pés no chão
Você não anda na contra-mão
Seu espelho nem quebra para começar
Eu nem ligo para a sorte no azar

Mas não se preocupe se nossos mundos são diferentes
Gosto de contemplar raios de tempestade de madrugada
Gosto de ouvir loucuras e ranger os dentes
Não se preocupe, o importante é saber o que se ama...

Agora são três horas na madrugada, eu acho!
Estou escutando Jimi Hendrix e seus solos de guitarra
Abra a geladeira e procure algo gostoso enquanto rola o comercial
Tudo normal e silencioso, a cidade é meu abismo...

Você tem os olhos claros e brilhantes
Você tem um sorriso...Desses que deixa qualquer um tímido
Mas não se preocupe se nossos mundos são diferentes
A cidade é grande e tudo se resume em imagens refletidas no espelho...

Agora já é de manhã...O sol aparece..O café está na mesa
Acordo com a insanidade exposta, anda pela cidade, abro a porta...
Não se preocupe, o importante é saber o que se ama...

...Eu acho!

MAURO ROCHA 25/O3/2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

TRAÇOS NA MÃO

Peguei o lápis e fiz uma escada
Peguei o papel e desenhei palavras
Hoje é dia e no circo tem poesia
Hoje é noite e a lua se despe de estrelas

O mundo abre suas portas
E eu sigo meus passos
Entre tempestades e tristes chuvas
Entre conhecidos e estranhos mudos

As asas do livro são suas páginas abertas
Hoje estou como Rodin e seu pensador
Intrínseco e liquidificado está o amor
E o outono chega para bagunçar árvores nas ruas

Peguei o lápis e fiz uma parábola
Peguei o papel e fiz um avião
A vida é um sopro na água
Meus passos driblam a solidão

O dia me traz um feixe ultravioleta
Traço palavras cruzadas nas noites com vinho
Abro a primavera com um desenho de borboleta
A vida é um mistério seguido de um sopro

Os anjos observam o mundo...Em alerta
Dos meus olhos tangem a cidade aberta
Qual a palavra certa depois do beijo e do desejo?
De costas mergulho em meu próprio abismo


O mundo abre suas portas
Sigo meus passos
Não procuro somente respostas
Aprendo com os caminhos e seus traços

Hoje estou como um anjo
Um anjo de asa quebrada
Observando o mundo e a palavra
Decifrando os mistérios que regem teu corpo...


Decifrando os mistérios que traçam meu rosto
O mundo se abre na noite nua
A cidade é quente numa sinuosa volúpia
O destino não escolhe a sorte no trevo

Desejo
Medo
Loucura
Amor e paixão na mesma mistura

Levanto pois já é tarde
Espero de frente à igreja
O que se faz com anjos sem asa?
Deseje..Apenas deseje...



MAURO ROCHA 19/03/2010














terça-feira, 16 de março de 2010

OLHOS PÁLIDOS

Quando mergulhei no mar
Não sabia nadar
Abri os olhos
Não era o mar

Era teu corpo
A me levar
Eram teus olhos
A navegar

Na palidez do dia
Na maciez da noite
Como numa música
Que não quer acabar

Meus olhos
Teus olhos
E eu a navegar

Sobre a lua
Na noite nua
Meus olhos
Teu mar...


MAURO ROCHA 16/03/2010