terça-feira, 26 de março de 2013

ALTO GRAU


É minha crueldade imensa que me faz viver
Viver o ideal do dia que observa a flor solitária no jardim
Que bebo a água a última água do deserto que fabrica o oásis de ilusão
Em chamas as florestas gritam um grito desumano
Tardio
Vazio
Meu peito inflado feito balão de hélio
E eu de chinelo, bermuda e camiseta observo a direita no fim da rua a lua...
Eclipse dentro dos olhos
Sangra minha mão sangra feito rio que vai para o mar
Sangra dentro da veia essas ruas estreitas que sobem e descem na cidade
Pessoas, cidades, pessoas sem identidade perdidas em seus corações...
Eclipse dentro dos olhos
E minha crueldade imensa é não fechar os olhos e ver o amor distante
É não abrir os olhos e ver o amor perto o bastante, feito tempestade de raios...
 
É minha liberdade imensa que me faz crer
Passo com meus passos despercebido os dias do calendário empoeirado na estante
Estanco o filete de madeira do dedo e sinto medo do medo de estar aqui feito poema
Escrito na parede está a verdade indignada do povo sofrido e ao mesmo tempo lúdico
E me assusto com sombras sem sol e queimo por dentro
Tardio
Vazio
Minha mente trilha estrelas mortas expostas em noites tediosas
E eu de chinelo, bermuda e camiseta observo a esquerda da rua o silêncio noturno.
Desfigurada minha face acorda para o abismo diário do caos delicioso do mundo
Que bebo num trago amargo quebrado pelo doce tira-gosto de uma tarde de sexo
E tudo o que escuto é o som das águas longínquas
E de pássaros que fugiram do frio e seus cânticos cheios de pena que dá pena
Escrevi um verso louco e estampado que de olhos vendados você sussurrou...
 
É minha insanidade imensa que me faz ver
Todas as fotos na parede e todas as cartas mal escritas que estavam no fundo do baú
E minhas mãos, tremulas, lembram que minha loucura tremenda foi fechar a janela
Antes da chuva rachada estava a terra que minhas lágrimas não conseguiam molhar
Mas agora observo a flor solitária no jardim numa noite que desejo estrelas
Tardio
Vazio
Meus olhos chocados com o amor que deveras clama sua chama e queima
Corpos cobertos de alegria, corpos cobertos de ansiedade, corpos cobertos de corpos.
E eu de chinelo, bermuda e camiseta observo no centro da rua o fim da linha.
Lavo as mãos, o rosto, olho bem para o espelho e vejo explodir nos olhos o infinito.
Tardio
Vazio...
 

MAURO ROCHA 25/03/2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

RENOVE


Outono estação nua
Tuas lágrimas em forma de folha
Teu rosto minguante
Queria teu corpo amante...
 
Não pense na vida, não olhe para trás.
As folhas caem e o vento segue o horizonte
Pisa firme e assuste os grilos em noites frias
Olhe para o futuro e sinta o orvalho na manhã seguinte...
 
A vida é feita de estações
E em cada uma renova-se
Devore seus instintos desenhando corações
Demore mas levante-se...
 
O sol estende seus raios em corpos
Sentimentos espalhados enquanto tudo isso um dia vai acabar
Não esqueça que o destino anda por mares e desertos
Não esqueça que a vida te dá o dia para sempre recomeçar...
 
Outono estação nua
No teu olhar o sol transformado em lua
Em minhas mãos teu corpo, teu rosto, estação tua.
Devore teus dias, saboreia tuas noites...

 
A estação preferida é aquela que te faz sorrir
A vida é vida e é ela que tu tens que vestir
Não olhe para trás siga o horizonte
Há muitos dias embrulhados em presente...
 
Há muitas noites e o amor na esquina
Veja seus olhos no espelho e diga o que sente
Veja seu corpo nu e inteiro e sinta a liberdade sussurrar na alma
Hoje é outono, amanhã é primavera, se vista tentadora e doce...   
 
Vista-se para a vida
Tire proveito das mordidas
Aprenda o caminho das estrelas
Nesse outono... Nu...

 
MAURO ROCHA  21/03/2013