sexta-feira, 14 de setembro de 2012

RETINAS FATIGADAS



Os dias cortados, a noite pequena.
A insônia me permite contar estrelas
Não procuro antídotos
Não há amor na indiferença, apenas a dor que dela se alimenta...

As noites cortadas, o dia pequeno.
A clarividência me permite ver os amigos
Não procuro antídotos
Não há guerra que não proclame paz...

Pensamentos cortados, a palavra pequena.
Os livros da estante me permitem viajar
Não procuro antídotos
Nem toda sede necessita de água...

Palavras cortadas, diálogo pequeno.
A janela me permite outro olhar
Não procuro antídotos
Nem todo fogo é desejo...

O tempo cortado, ventos periódicos.
O perdão não salva almas penadas, mas ameniza a dor.
Não procuro antídotos
Nem toda liberdade têm asas...

Ventos cortados, o tempo variado.
Os porta-retratos também guardam a poeira dos sentimentos
Não procuro antídotos
Nem toda pedra está no caminho...

Os dias cortados, a noite pequena.
A insônia me permite contar estrelas
Não procuro antídotos
Mas o sentido que a vida dá para as coisas sem sentido...


MAURO ROCHA 14/09/12
  


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

MENSAGEIRO


Eu estava ali
Mas ninguém me via

Eu estava ali
Mas ninguém me ouvia

Eu estava ali
Mas ninguém me sentia

Eu esta ali
Anotando os recados
Enquanto eles oravam...


MAURO ROCHA  13/09/12

O ESPELHO QUE NÃO VEJO


Olho para o amanhã e vejo você me chamar
Olho para a noite e vejo você chorar
Somos fantasmas
Somos páginas viradas
 
Vago pelo mundo
Carregando as pedras nos ombros
 
Vejo tudo em preto e branco
A dor é relativa
As feridas eternas é o que castiga
 
Onde estão minhas origens?
No negro de olhos azuis?
No índio nu!
No branco que veio do sul?
 

Ou na mistura de todos eles
Passada por gerações
Numa árvore sem explicação
Sem idade, identidade, apenas o destino traçado na mão...
 
Olho para o espelho e não me vejo
Sou apenas um fantasma
Procurando respostas no meio da madrugada
Tentando entender minha morte passiva
 
Figura decorativa de vida cotidiana
Figura frenética da vida cibernética
Vive os dias por obrigações mundanas

Vive a noite das fantasias humanas
 
Somos fantasmas modernos
Não morremos ou somos enterrados com ternos
Somos apenas mais um na multidão
Somos nicknames fugindo da solidão...
 
 

MAURO ROCHA 31/08/2012

 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

CROMÁTICO

 
A cidade envolvida pelos seus sons
Uma hora dessas lhe convido para um café
Mas agora procuro uma vaga
Enquanto o coração acelera o ritmo das passadas...
 
Não vim aqui com palavras ácidas
Conheço muita gente que chora sem o porquê.
A vida muitas vezes é uma lastima
A vida muitas vezes é só prazer.
 
Pediram para eu escrever sobre o amor
Mas que amor?
O que perdi na infância?
Ou o que deixei na adolescência
Todo cheio de decepções...
 
Não! Não agora, estou observando a cidade e seus sons.
O amor se renova sabia?
Cria asas, cura paixões, vira brisa depois da tempestade...
Não! Esse assunto é complexo, frenético, sabe? Choca!
 
Mergulha, faz bem!
Quando se mergulha junto, tudo bem!
Mas tenho medo das tempestades que vem do mar
Sei que quando passa o que fica com certeza é amor
 
Pois quem sobrevive a uma paixão avassaladora
Só pode ter como prêmio um amor verdadeiro
Se não por alguém
Por si mesmo.
 
A cidade envolvida pelos seus sons
Têm dias tristes
Têm dias felizes
Nos caminhos, nas batidas, escute seu corpo, escute seus sons...
 
Mas agora procuro uma vaga
Enquanto o coração acelera o ritmo das passadas...
 

MAURO ROCHA 11/09/12

 

 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

FOLHAS SECAS

Sobrevivo e vivo no dia
Nas paisagens que o ônibus traz
No trabalho que às vezes desejo ser fugaz
Sobrevivo e vivo no dia
 
Sobrevivo
E vivo na poesia
Que alimenta o vazio
Da alma telúrica
 
E tudo se resume ao nada
A noite se estende na madrugada
Sobrevivo e vivo
Na cidade variada e cheia de desejo
 

Folhas secas
Faz barulho o amor
Bebo a palavra, lágrimas e poemas...
A cidade variada em cor
 
Sobrevivo e vivo
Na matemática das finanças
Vou dançando e variando as músicas
Tem dia que é rock, tem dia que é tango...
 
Sobrevivo e vivo no dia
Nas paisagens de teus olhos
Escutando as vozes dos ventos

Acordo com os pingos da chuva
 
Sobrevivo e vivo
Construindo o destino
Abrindo portas, fechando janelas,
Chorando nas noites, sorrindo com as estrelas...
 
Uma pessoa comum
Diante do espelho do mundo nu
Sobrevive e vive no começo da manhã
No beijo um gosto de hortelã, no dia um gosto de maçã...
 
Sobrevivo e vivo nas linhas do poema
Leio os mestres, grito os sentimentos,
Navego no desejo do corpo da amada
Na cidade a palavra ocre e o céu cheio de signos
 
Folhas secas
E os sentimentos da estação
Bebo a palavra, lágrimas e poemas...
Na cidade que muitas vezes não tem coração...          
   
 
MAURO ROCHA 08/10/2010

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

REALIDADE INSÓLITA


 

Não sei escrever como Cecília Meireles
Nem chego aos pés de Mário Quintana
E quem me dera à sombra de Drummond
 
Vejo de binóculos a complexa simplicidade de Ferreira Gullar
Para quem sabe um dia poder tocá-la
Navego no mar de Fernando Pessoa
Na esperança de ser pego nas redes tristes de Pablo Neruda
 
Não sei escrever com a loucura divina de Edgar Allan Poe
Nem consigo avistar a torre mais alta de Dylan Thomas
E talvez não seja tão intenso quanto Federico García Lorca
 
Mas uma coisa é certa
Leio toda a palavra transformada em dias
Aprendo com cada movimento do corpo que a alma transcende
E escrevo com cada lágrima ou cada sorriso que jogo ao vento
 
Pois não quero ser nunca nem um desses maravilhosos escritores
Apenas quero continua admirando esses que para mim são mestres
E vou assim seguindo a vida e escrevendo a poesia
Tão minha, tão sua, tão dia-a-dia...
 
E já dizia o poeta Manoel de Barros:
“Entender é parede”
Por isso procuro ser árvore.

E não tenho medo da minha loucura
Pois ela é companheira que se junta à solidão
Dentro dessa realidade insólita
Minha alma me acalma enquanto o corpo está nu
 
Meu corpo sangra no asfalto enquanto a alma sente o frio
Como se toda vida fosse uma tragédia grega
Mas saiba que todo dia é uma surpresa
Ver o sol platonicamente apaixonado pela lua num romance lúdico
 
Eu não sei escreve...
                
...Apenas deliro.

  

MAURO ROCHA   06/09/12

 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

ESCRAVO

O céu do centro da cidade é mais claro
Procuro meus sonhos nos mapas riscados na mão
As estrelas estão ai para quem quer um brilho
Na verdade feche os olhos e siga a estrada...
 
Num dia normal
Numa vida moderna
Com um frio na espinha
Sem máscaras, sem carnaval...
 
As águas do rio refletem as nuvens do céu
As cochas de retalho desenham a cidade
Procuro meus sonhos nas rimas do cordel
Na verdade bata palma e tire o chapéu...
 
Para os calos na mão e os olhos nas lágrimas
De quem tem fé na vida e sorriso na alma
Para os palhaços que nos fazem ri
Quando na verdade eles querem chorar...
 
Num dia normal
Numa vida moderna
Com um frio na espinha
Sem máscaras, sem carnaval...
 
 O fogo que me queima a alma na noite fria
O sangue coagulado no canal da TV
Escravo do consumismo barato que aparece, mas se vê.
Na verdade grite para espantar o tédio e a agonia...
 
Num dia normal
Numa vida moderna

Seus sapatos sujos, o cotidiano no jornal.
Na verdade beba um vinho nos braços da pessoa amada...
 
Faça amor no inicio, meio ou fim da madrugada.
Cante seu rock desafinado
Corra para manter a forma
Formule as ideias num banho inspirado...
 
Num dia normal... Onde os anjos pegam em tua mão.
Numa vida moderna... Coberta de uma camada fina de gelo.
Com um frio na espinha... A cada nervosismo em frente ao espelho.
Sem máscaras, sem carnaval... Vivo no compasso do coração.

 
Na verdade...

                                                                                               

MAURO ROCHA 29/05/12

terça-feira, 4 de setembro de 2012

STRATUS


Veja...
A folha em branco já é um poema
Liquido, cheio de formas e dilemas.
Esperando o toque suave do lápis
Ou o toque encorpado da caneta
Que desenha as letras lisérgicas do poeta
Que no seu delírio noturno descreve o dia
Que descreve a nudez da cidade
Ou apenas observa as curvas na linha do horizonte...
 
Vejo
A primavera em teus olhos
Choro
No desejo de tuas pernas
 
Quebro a vidraça, mato a traça.
Pinto teu corpo de luz neon
Transformo em vídeo-clips o beijo
E a folha continua branca...
 
Mesclada à noite brilha outono
Crisântemos amarelos enfeitam a mesa
Instintos misturam vinho e desejo
A amanhã grita gralhas e gaivotas
 
A cidade adormecida se agita
No rodopio de nuvens stratus
O poeta traga seus versos amargos
A folha em branco provoca verbos insanos
Dor, sangue e lágrimas.
Risos, amor e palavras.
O poema tatuado e sem nome
Consome a alma e se alastra pela cidade...
Veja
A folha em branco já é um poema...
 
MAURO ROCHA 23/08/12